Saber como liderar “a revolução” é o desafio

A EXEMPLIFICAR A NATUREZA DA TRANSFORMAÇÃO A QUE ASSISTIMOS, ESTÃO AS GIGANTES TECNOLÓGICAS MUNDIAIS, CRIADAS COM O ADVENTO DA ERA DIGITAL, HÁ POUCOS ANOS E QUE HOJE TÊM UM VOLUME DE RECEITAS SUPERIOR AO PIB DE ALGUMAS ECONOMIAS
A transformação digital não é mais uma revolução, como outras revoluções que marcaram a história da humanidade, mas ‘a revolução’. É muito mais rápida, mais caótica, está na base de verdadeiras disrupções, promovendo mudanças de paradigma na economia e na sociedade sem precedentes e transferências de valor significativas em períodos de tempo muito curtos. Depois desta revolução, nada ficará como antes. O que está em marcha é uma nova ordem mundial, assente no digital.
A exemplificar a natureza da transformação a que assistimos, estão as gigantes tecnológicas mundiais, criadas com o advento da era digital, há poucos anos, e que hoje têm um volume de receitas superior ao PIB de algumas economias. Embora recente, a revolução digital já gerou empresas mais poderosas que muito Estados e comunidades digitais que superam em muito as físicas: o Facebook é já a maior comunidade mundial, superando em número de utilizadores a população de um país como a China; e o número de utilizadores da WhatsApp posiciona-se logo a seguir ao número de habitantes da Índia.
Estas plataformas online à escala mundial são avaliadas não só pelo que fazem hoje, mas sobretudo pela perceção que se tem do seu potencial para gerarem valor no futuro. O que explica o mais recente ranking da Forbes das marcas mais valiosas do mundo, divulgado em maio. Há cinco tecnológicas na liderança – Apple, Google, Microsoft, Facebook e Amazon – sendo que a dona do iPhone está na 1ª posição há 8 anos consecutivos e o maior motor de busca do mundo ocupa o 2º lugar há 3 anos. No seu conjunto, o valor das respetivas marcas aumentou 20% no intervalo de tempo de um ano, somando em conjunto um valor da ordem dos 586 mil milhões de dólares.
Ninguém tem dúvidas de que as grandes tecnológicas mundiais têm vindo a consolidar o seu poder nos últimos anos, registando lucros enormes e uma valorização exponencial. Dominam os respetivos setores graças aos produtos e serviços e à força das respetivas marcas, o seu atributo mais valioso. Das 100 empresas analisadas pela Forbes, 20 são tecnológicas.
O mundo na era digital será muito diferente. As mudanças já são visíveis, mas muito está ainda por acontecer, nesta nova ordem mundial que emerge de forma cada vez mais rápida. Há novos negócios e outros que desaparecem de um dia para o outro, há destruição de empregos e criação de novas profissões, muda o equilíbrio de poderes entre as regiões do mundo. Este é um novo mundo que traz novos e difíceis desafios às pessoas, às empresas, aos setores de atividade, às economias, à regulação, aos Estados.
O mundo na era digital será muito diferente. As mudanças já são visíveis, mas muito está ainda por acontecer, nesta nova ordem mundial que emerge de forma cada vez mais rápida. Há novos negócios e outros que desaparecem de um dia para o outro, há destruição de empregos e criação de novas profissões, muda o equilíbrio de poderes entre as regiões do mundo. Este é um novo mundo que traz novos e difíceis desafios às pessoas, às empresas, aos setores de atividade, às economias, à regulação, aos Estados.
ANALISAR IMPACTOS DAS TENDÊNCIAS
Tudo e todos estão, cada vez mais, a ser impactados pelas tecnologias da transformação digital; como a inteligência artificial/machine learning/robótica, big data e analytics, a computação na cloud/edge, a internet das coisas, o blockchain e as cryptomoedas, a realidade aumentada ou paradigmas como a gamificação. Sendo fundamental, no contexto atual, analisar cada uma dessas tecnologias e a forma como estão a ser aplicadas em concreto, a APDC desenvolveu o seu terceiro estudo anual, este ano sobre “As Tecnologias da Transformação Digital”. À semelhança de 2016 e 2017, trata-se uma iniciativa pioneira no conteúdo e na forma como é desenvolvido, sendo verdadeiramente colaborativo, já que envolve as empresas do setor das TIC e Media e de outros setores representativos da economia portuguesa.
As principais conclusões deste trabalho serão apresentadas no 28º Digital Business Congress, que manterá como tema de fundo “A Economia e Cidadania Digitais”, o tema definido para o atual mandato da APDC. Pretende-se fazer um ponto de situação da adoção da tecnologia na transformação digital, através da análise das tendências e de vários case-studies de aplicação real em empresas ou projetos. Assim como analisar alguns temas transversais aos vários setores, como a Ciberseguranca; Outsourcing e Nearshoring; as Cidades e Territórios Digitais; o Empreendedorismo Digital; as Qualificações Digitais; e a Inovação Social.
O nosso Congresso assume cada vez mais um papel agregador e dinamizador da discussão pública sobre os temas que se colocam hoje aos decisores. Através dele, a APDC e os seus Associados Institucionais pretendem contribuir para o avanço do processo da transformação digital. Uma das áreas com enorme impacto é, sem dúvida, o das qualificações. A natureza do trabalho está a mudar muito com a transformação para o digital e de forma muito rápida, prevendo-se nos próximos anos uma destruição massiva de postos de trabalho. Em paralelo, estão a ser criados novos postos de trabalho para esta nova economia digital, mas em áreas completamente distintas e para pessoas muito mais qualificadas e especializadas.
É por isso que há que ter um grande sentido de urgência na qualificação para o digital. Hoje, é preciso estudar mais e sempre, de forma a acompanhar o ritmo da mudança e as alterações sucessivas no mercado de trabalho. Num mundo globalizado, onde a hiperespecialização impera, todos temos que ter um leque de competências abrangente, tanto em termos comportamentais como técnicos.
Iniciativas públicas como o INCoDe.2030, onde a APDC colabora, são essenciais para qualificar e promover a inclusão digital de todos, de forma a garantir a igualdade de oportunidades. Em linha, aliás com a estratégia da Comissão Europeia, que em junho último propôs a criação do 1º programa Europa Digital, com um investimento de 9,2 mil milhões de euros, para que o próximo orçamento da UE a longo prazo (2021-2027) possa dar resposta aos desafios crescentes do setor digital. Supercomputadores, inteligência artificial, cibersegurança e confiança e competências digitais são as áreas de investimento. O objetivo é, depois de criado um quadro regulamentar adaptado à era digital, garantir investimentos para promover a competitividade da UE a nível internacional e desenvolver e reforçar as capacidades digitais estratégicas da Europa.
QUALIFICAR E DAR CONDIÇÕES É ESSENCIAL
Bruxelas pretende garantir uma transformação digital bem-sucedida na Europa, investindo na criação de capacidades digitais essenciais a nível estratégico. Neste processo, o setor das tecnologias de informação, comunicação e media assume-se como uma alavanca fundamental, um ativo crítico para o crescimento da economia. Mas para que seja um motor de crescimento, emprego e inovação, terão que ser asseguradas condições para isso, em termos de previsibilidade legislativa, regulatória e fiscal.
Portugal está a ganhar velocidade e estamos ainda no início do processo. Para que o nosso país se possa perfilar como um protagonista da revolução digital e das suas rápidas transformações e garantir um crescimento sustentado, é preciso fazer mais.
As bases já estão construídas: temos empresas e empreendedores que são uma alavanca fundamental de mudança, temos um sistema nacional de inovação que está a reforçar-se como nunca, temos um sistema científico e tecnológico que se destaca, multiplicam-se as startups cada vez mais inovadoras, há mais incubadoras, aceleradoras e outras instituições que apoiam o ecossistema empreendedor… Hoje, o país é reconhecido internacionalmente, como prova o facto dos múltiplos hubs de inovação que se estão a instalar no mercado nacional.
Agora, há que saber criar as condições para conseguir atrair mais investidores para o nosso ecossistema, de reforçar a ligação entre grandes empresas e as startups inovadoras e de saber aproveitar os incentivos que já existem, assim como criar novos. E que ninguém tenha dúvidas: este será um processo sempre em construção, que terá obrigatoriamente que nos envolver a todos.
O MUNDO NA ERA DIGITAL SERÁ MUITO DIFERENTE. AS MUDANÇAS JÁ SÃO VISÍVEIS, MAS MUITO ESTÁ AINDA POR ACONTECER, NESTA NOVA ORDEM MUNDIAL QUE EMERGE DE FORMA CADA VEZ MAIS RÁPIDA.
Captura de ecrã 2018-10-11, às 03.18.27

ROGÉRIO CARAPUÇA | PRESIDENTE, APDC

É Presidente da APDC desde Janeiro de 2013, tendo iniciado o segundo mandato de três anos à frente da Associação a 4 de Abril de 2016. Teve um percurso profissional desde sempre ligado às Tecnologias de Informação e Comunicação. Foi assistente e professor do IST entre 1981 e 1994. Na Novabase, foi administrador desde 1994, Presidente do Conselho de Administração entre 1998 e 2015, tendo entre 1998 e 2009 acumulado funções de Presidente do CA e CEO. Até recentemente, foi administrador de várias empresas do mesmo grupo. Licenciado em Engenharia Eletrotécnica, tem um Mestrado e um Doutoramento em Engenharia Eletrotécnica e Computadores pelo IST. Desenvolveu ainda a atividade de investigador do INESC (1984/94), onde foi responsável pelo Grupo de Sistemas de Informação. Foi Membro do Conselho de Faculdade da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, e é Membro do “Management Committee” do Programa CMU/ Portugal, Membro da Ordem dos Engenheiros, da Academia de Engenharia e do Instituto Português de Corporate Governance. Foi condecorado pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, com a Grande Oficial da Ordem do Mérito Agrícola, Comercial e Industrial, na classe de mérito Industrial, em Fevereiro de 2006.