Preparar um Futuro em constante mudança

Preparar um Futuro em constante mudança

Rogério Carapuça

Presidente, APDC

"O processo de transformação digital está a acontecer em todas as áreas e a dimensão da mudança é de tal forma grande que está mesmo a alterar o mapa da geopolítica mundial, assim como o tipo de ameaças que enfrentamos"

A revolução digital que vivemos não tem precedentes na história da Humanidade, quer em velocidade, quer em dimensão e impacto. O arranque da utilização da quinta geração móvel (5G), a utilização massiva da IoT, a inteligência artificial e a robótica, entre outros instrumentos tecnológicos desta mudança, prometem transformações ainda maiores. Alterarão ainda mais a forma como trabalhamos, como vivemos e como nos organizamos.

A primeira motivação para a transformação acaba por ser claramente defensiva. O que queremos dizer com isto é que as empresas já estabelecidas no mercado começam a preocupar-se com a possibilidade de aparecer uma espécie de disruptor, que lhes faça concorrência e, para sermos sinceros, cansámo-nos de ouvir tantas referências ao caso da Uber. As motivações alteraram-se substancialmente nestes últimos 3 anos, tendo em conta que os executivos da indústria devem continuar a investir neste conceito já que os seus acionistas esperam que eles sejam capazes de assegurar dividendos digitais para a organização. Uma prova desta realidade chega-nos de investidores como Nelson Peltz que justificou o seu recente comportamento na Procter & Gamble (P&G) com a ideia de que a P&G não estava a ser suficientemente rápida e eficiente em maté – ria de transformação digital.

Estes novos disruptores, que estão a aparecer nos vários setores de atividade, até nos mais tradicionais, estão a alterar as cadeias de valor como as conhecíamos, criando novos paradigmas, obrigando os incumbentes a responder, transformando-se eles próprios também, sob pena de não conseguirem sobreviver.

Chegámos a uma altura em que o mercado é composto por: (1) empresas que já estão a executar o seu roadmap de transformação e procuram retirar valor da sua maturidade digital, e (2) empresas que estão a finalizar o seu roadmap e a come – çar implementar a sua estratégia. Quando começámos a analisar a maturidade da Transformação Digital, a maioria das empresas começava a perceber o que era DX. E agora ficou claro que precisamos reequilibrar o estudo no sentido de entender e dar resposta a este novo tipo de empresas, embebidas no conceito de digital e que estão a investir com o intuito de captar oportunidades em vez de apenas defender o seu terri – tório. Tendo em conta esta realidade, o presente documento apresenta o nosso próximo nível de maturidade DX, ao qual chamamos Future Enterprise (FE) .

Uma prova de que a transformação digital mudou o mundo está, por exemplo, na constatação de que há hoje empresas tecnológicas globais que são mais poderosas do que os próprios Estados. A economia portuguesa tem hoje a mesma dimensão dos negócios da Apple e até a economia dos EUA equivalerá a cerca de 100 vezes o volume de negócios desta empresa. No ranking da Kantar e da KPP, divulgado em junho deste ano, na lista das marcas globais mais valiosas do mundo, sete são gigantes digitais. Amazon, Apple, Google e Microsoft estão nas quatro primeiras posições, o Facebook está em 6º, seguido da Alibaba e da Tencent.

Outro exemplo está nas comunidades globais, cada vez menos identificadas com países, mas sim com o conjunto dos utilizadores das várias redes sociais. Agora, a maior comunidade do mundo é digital e é do Facebook. A rede social criada por Mark Zuckerberg tinha em junho, mais de 2,41 mil milhões de utilizadores mensais ativos e, em média, mais de 1,59 mil milhões de pessoas que são utilizadores ativos diários.

O processo de transformação digital está a acontecer em todas as áreas e a dimensão da mudança é de tal forma grande que está mesmo a alterar o mapa da geopolítica mundial, assim como o tipo de ameaças que enfrentamos.

FUTURO DOS NEGÓCIOS, GOVERNAÇÃO E CIDADANIA

Face a esta situação, a APDC entendeu centrar-se, no atual mandato dos seus órgãos sociais, iniciado em abril deste ano, na tentativa de antecipação daquilo que será o Futuro dos Negócios. Queremos refletir com os nossos Associados e com os seus clientes sobre a forma como a revolução digital já está, e continuará de forma cada vez mais acelerada, a mudar o dia-a-dia das empresas e dos seus negócios. Vamos incluir ainda neste objetivo a análise do Futuro da Governação e da Cidadania, porque também eles continuarão a ser cada vez mais impactados e transformados pelo digital.

Este exercício estará refletido em todas as nossas atividades ao longo dos três próximos anos, o que trará consigo uma permanente reinvenção da própria Associação e dos seus eventos. A começar pelo próximo Digital Business Congress, o Congresso da APDC.  

Centrando-se na discussão sobre o Futuro dos Negócios, os próximos congressos apostarão em testemunhos de protagonistas centrais dessa transformação e na análise de casos concretos de transformação digital em clientes em Portugal, relacionando-os com o que de mais avançado se vai fazendo no Mundo.

Mostrar, com exemplos práticos, o que está a mudar no terreno todos os dias será uma preocupação central, pelo que revisitámos a forma e a dinâmica gerada nos nossos Congressos e já anunciámos várias novidades para o próximo. O maior evento anual da APDC terá este ano como Presidente Fátima Barros, ex-presidente da Anacom e atual Professora Associada na Lisbon School of Business & Economics, da Universidade Católica. Conta também com Arlindo Oliveira, Presidente do Instituto Superior Técnico, como Coordenador Científico, e com João Adelino Faria, jornalista da RTP, como Host da iniciativa.

Vamos analisar, com exemplos práticos, o que está a mudar no terreno todos os dias, em sete setores distintos: Energy, Commerce, Government, Insurance, Manufacturing, Media e Tourism. Teremos várias ‘Innovation Talks’ que virão dar a sua visão sobre temas que vão marcar o nosso futuro. Haverá ainda o debate sobre os grandes temas que estão a marcar a atualidade.

No âmbito do próximo Congresso, voltarão também a ser realizados estudos sobre casos concretos de Transformação Digital em Portugal. Mas este trabalho surge agora com um formato diferente, já que será desenvolvida uma análise mais detalhada e estruturada de casos concretos paradigmáticos e ilustrativos das mudanças que estão a ocorrer nas empresas, num quadro de transformação digital.

A natureza da revolução tecnológica a que estamos a assistir está a impor que todas as empresas sejam atores de pleno direito na economia digital. Assim, a APDC está a alargar, cada vez mais, a sua atividade às empresas dos outros setores de atividade. Estas passam assim a participar num amplo debate e reflexão sobre um futuro que é de todos nós. 

Temos um setor TIC que tem investido fortemente em novas infraestruturas de comunicações, ao nível das melhores que existem na Europa e no Mundo. Temos um florescente ecossistema empreendedor de base tecnológica capaz de gerar empresas internacionais de relevo. Temos empresas de topo internacionais a apostarem na sua presença no mercado nacional. Estão, por isso, reunidas algumas das condições para que o país se possa diferenciar, com claros benefícios para a economia e para a sociedade. 

A próxima geração de sistemas de comunicação móvel 5G, que promete criar um ambiente de rede verdadeiramente convergente, onde as comunicações com e sem fios usarão as infraestruturas de largura de banda ultra-alta, deverá criar uma sociedade verdadeiramente conectada. Vamos ter sistemas cada vez mais inteligentes, máquinas a complementar ou a substituir o trabalho de humanos, novos paradigmas de armazenamento de dados e tudo o mais que ainda nem sequer imaginamos. 

Portugal tem de saber tirar partido destas profundas transformações, para se posicionar como um player de relevo no panorama europeu e até mundial. Mas, para o garantir, terá de ter uma estratégia nacional de aposta na aceleração da formação de talento qualificado e da atração de talento do exterior. Terá ainda de promover e reforçar os apoios ao ecossistema de startups, remover os obstáculos ao desenvolvimento do setor privado. E continuar a apostar numa Administração Pública cada vez mais digital e próxima do cidadão, dando ainda o exemplo na adoção das tecnologias. 

Fundamental é também não esquecer temas cada vez mais críticos para uma sociedade e economia que serão cada vez mais digitais: a cibersegurança, as ameaças crescentes que surgem no mundo digital e a proteção dos dados pessoais. De tudo isto dependerá a nossa coesão social, a nossa competitividade e o nosso sucesso, no quadro de um mundo transformado pela revolução digital.

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Rogério Carapuça | Presidente, APDC

É Presidente da APDC desde Janeiro de 2013, tendo iniciado o terceiro mandato de três anos à frente da Associação a 4 de Abril de 2019. Teve um percurso profissional desde sempre ligado às Tecnologias de Informação e Comunicação. Foi Assistente e Professor do IST entre 1981 e 1994. Na Novabase, foi administrador desde 1994, Presidente do Conselho de Administração entre 1998 e 2015, tendo entre 1998 e 2009 acumulado funções de Presidente do CA e CEO. Foi administrador de várias empresas do mesmo grupo. Atualmente, é consultor. Licenciado em Engenharia Eletrotécnica, tem um Mestrado e um Doutoramento em Engenharia Eletrotécnica e Computadores pelo IST. Desenvolveu ainda a atividade de investigador do INESC (1984/94), onde foi responsável pelo Grupo de Sistemas de Informação. Foi Membro do Conselho de Faculdade da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, e é Membro do “Management Committee” do Programa CMU/ Portugal, Membro da Ordem dos Engenheiros, da Academia de Engenharia e do Instituto Português de Corporate Governance. Foi condecorado pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, como Grande Oficial da Ordem do Mérito Agrícola, Comercial e Industrial, na classe de mérito Industrial, em Fevereiro de 2006.