No tempo da “tecnologia” (I)Moral

ACREDITO QUE AS EMPRESAS DEVEM TER UMA CONSCIÊNCIA, UM COMPASSO MORAL. E A LIDERANÇA DEVE SERVIR A ORGANIZAÇÃO NESSE CONTEXTO
A PROPÓSITO DE ROBOTS

Por acaso aqui alguém falou de robots? “Isso é imoral!”, pensarão uns. Seria o pânico deixarmos de falar de robots em conferências da especialidade? – deixo eu no ar.

E que tal se, desta vez, falássemos em inteligência moral? Que valor acrescentado queremos para Portugal? E a educação? Pode ser a peça para o futuro de que precisamos? Temas essenciais para quem gosta de Inteligência Artificial.

Mas, já agora, desde quando é que Inteligência Artificial é novidade?

Eu e milhares de engenheiros aprendemos inteligência artificial na universidade. Funções heurísticas. Algoritmos que aprendem com base em padrões, implementados em Software.

Desde a Revolução Industrial que se trabalha para podermos substituir algumas funções humanas por máquinas. Estou propositadamente a usar a palavra – máquinas – porque automatizámos algumas funções através de máquinas. Estávamos a substituir funções – essencialmente de força – que eram antes desempenhadas por músculo humano. Trezentos anos depois, continuamos a substituir funções, só que, desta vez, desempenhadas pelo cérebro humano, pela nossa inteligência – funções da mente.

“ELES” VÃO SUBSTITUIR AS PESSOAS

Na automatização da economia, usando robots – bots –, é um facto que estamos a substituir algumas funções, as tais que eram feitas por pessoas – mesmo a nível intelectual –  por algoritmos. Ora, isto é muito diferente de se dizer que “eles vão substituir as pessoas por robots” ou “Vamos ficar sem empregos porque vamos ser trocados por robots”. Eles – empresas tecnológicas – existem para tornar obsoleto aquilo que para nós, pessoas comuns, consideramos hoje relevante.

Importa esclarecer e repor os factos: algumas funções feitas por pessoas vão passar a ser executadas por um algoritmo, robot ou peça de software.  Para ter um exemplo, imagine o vigilante da escola dos seus filhos, na portaria, a olhar para vários ecrãs em simultâneo. Sabia que ele só consegue ser eficaz na sua ação de supervisão durante 10% do tempo? Várias câmaras, mais os procedimentos e relatórios de segurança, e ainda o atendimento à entrada da escola… já percebeu onde quero chegar? Agora imagine que o sistema de vigilância tem embebido um software que permite, através da deteção de padrões do movimento do corpo humano, antecipar se um determinado movimento de alguém é um comportamento potencialmente perigoso. E que esse algoritmo envia alertas para o próprio vigilante, e também para a gestão da escola, ou até mesmo para si. E, no que toca à segurança dos nossos filhos, nada mais posso acrescentar.

É por isto que é bom darmos as boas vindas a esta transferência de tecnologia. Da ciência para as empresas. Das empresas para as Pessoas!

Importa ainda distinguir mitos de factos. E isto é um facto: substituir uma Pessoa inteira por um robot é, à data, economicamente inviável, embora possa ser cientificamente possível, pelo menos a prazo. No entanto, é já muito viável passar para o software algumas funções desempenhadas pelo ser humano, mas isto é diferente de substituir o ser humano inteiro.

É por isso que há um outro lado da Inteligência Artificial que importa aprofundar, para além do que a técnica e a ciência permitem. Para além das oportunidades. Muito para lá das soluções e do que as empresas fazem e sabem fazer.

ONDE ESTÁ O LIMITE?

Ora vamos lá…

À ciência pede-se desenvolvimento sem limites. No caso das TIC, faz-se muita ciência no contexto empresarial. À ciência permite-se que se encontre uma forma rápida, eficaz e sem dor, para que se possa praticar a eutanásia. Mas a decisão para a concretização da eutanásia não é um ato médico. Sai fora do scope da ciência. Passa a ser um tema de todos, enquanto sociedade. Em tecnologias, estamos a trabalhar numa grande parte das vezes, em temas que podem ser considerados moralmente certos ou errados. E devemos assumi-lo. Em vez de nos refugiarmos no nosso papel de ser “tecnicamente corretos”.

Cabe às empresas a aplicação prática da ciência e transformá-la, pondo em perspetiva, como se deve utilizar aquela tecnologia e com que objetivo. Moralmente, fará parte do nosso papel? Sem nenhuma dúvida que sim.

Só que aqui entramos no campo da consciência. Arriscando estar a entrar em campo sensível, vou continuar, com todo o respeito que a temática exige.

NO CASO CONCRETO DO ROADMAP, A IDC DESENVOLVEU NOS ÚLTIMOS DOIS ANOS MAIS DE 500 USE CASES EM 15 SETORES, AGRUPADOS EM MAIS DE 60 PRIORIDADES ESTRATÉGICAS E MAIS DE 170 PROGRAMAS DE TRANSFORMAÇÃO DIGITAL..

E quando temos presente essa consciência, surge facilmente a famosa palavra – moral.  Termos a clara noção de bem e de mal daquilo que estamos a fazer ou decidir. Ou, como diria um bom dicionário*, “termos presente o conjunto dos princípios e valores de conduta do homem.”

VAMOS DEIXAR DE NOS ESCONDER?

Permitam-me a provocação.

Muitas vezes, a gestão e a liderança escondem-se atrás da técnica e deixam este tema da moral para os outros. Umas vezes para os colaboradores, outras para os clientes, às vezes para os utentes dos serviços. Há por vezes um foco extremo no scorecard exigido, que serve a sua avaliação. É preciso ir para além do scorecard. Porque, para entregar bem um scorecard, basta um gestor competente, com forte disciplina de execução e alguma – ou muita – inteligência cognitiva e emocional. Mas falo aqui de outra coisa: de inteligência moral.

Vamos deixar de nos esconder atrás da técnica e assumir o nosso impacto moral na construção da sociedade que queremos ter?

Até porque cada pessoa no contexto de uma equipa – empresa – define todos os dias, em cada micro decisão que toma, o que é a moralidade da empresa. E é na escolha diária de cada um, na ajuda da decisão de “qual é que deve ser a moralidade da marca”, “o que é que a marca quer significar e o que defende”, “o que é que quer representar na sociedade”, e “no que ela me ajuda a transformar a minha vida”, que a liderança tem um papel ativo e impactante.

O mesmo acontece quando uma marca tem um novo produto para lançar no mercado, e a organização – através das suas várias lideranças –  tem a questão da moralidade: “O que é que eu estou a lançar no mercado? Que impacto é que isso vai ter para a sociedade? Que valores estou a semear no longo prazo?” e “Que cultura estou a construir com esta decisão?”.

Temos a obrigação, enquanto líderes de sectores com enorme impacto na sociedade, de nos questionarmos sobre as falhas da nossa consciência. Temos falhas? Muito bem, onde? E depois assumir que já estamos a pensar, decidir e atuar com base em alguma moral. Talvez a nossa. Talvez a dos nossos colaboradores. Pode existir a necessidade de treinar a nossa inteligência moral para que os nossos colaboradores e os seus líderes possam e saibam tomar decisões mais sofisticadas. Mais modernas. Mais morais.

E volto novamente à tomada da consciência. De que é que estamos a falar, quando estamos no campo dos robôs e da inteligência artificial?  De consciência. De decisões com consciência moral. Com base num padrão de ética, que deve ser claro, transparente, e operado em função desse mesmo padrão.

É CRUCIAL ESCOLHERMOS O NOSSO FUTURO

Um bom exemplo disso ocorre-me quando se fala de Nearshore.

Quanto ao Nearshore, de Portugal para o mundo, o que todas as instituições fazem, com a melhor das intenções, é trazer para Portugal serviços que depois são exportados. Tudo bem até aqui. Contudo o grande paradigma é o seguinte: estes centros de Nearshore, servem normalmente outras operações no centro da Europa, e só depois o seu serviço é entregue aos clientes finais.

Ora o que acontece é mais ou menos isto:

Vamos pensar numa fábrica de sapatos. A cadeia de valor equivalente seria como vender as horas dos colaboradores – funcionários – da fábrica, em vez de vender os sapatos. Ou seja, vender o tempo da mão de obra, em vez do resultado final do seu trabalho, com todo o valor acrescentado. O centro de Nearshore acaba por ser o centro de exportação de horas dos “funcionários” da fábrica, em vez de ser a exportação da cadeia de valor completa, e assim, trazer o máximo de valor para Portugal.

Penso que devemos pensar a longo prazo. Portugal precisa desesperadamente de políticas a longo prazo.

O caminho do desenvolvimento tem de ser feito com base no valor acrescentado e diferenciado. Quando seguimos o caminho fácil de vender horas a metro, significa que Portugal está no fim da cadeia de valor. Pode ser muito bom no curto prazo. Mas vamos pagar caro daqui a 10 ou 15 anos, no dia em que qualquer outro qualquer país se torne mais competitivo do que nós. E isto é preocupante!

Voltemos aos sapatos: pergunto-me como seria possível ser competitivo nesta indústria apenas pelo custo de produção, quando sabemos que países com mão de obra em maior quantidade produzem sapatos a custos muito mais baixos. Ora sabemos que a indústria de calçado que competia neste referencial, terminou. Subsistem os que apostaram no valor e na diferenciação. Subsistem os que apostaram em construir uma Marca. Longo prazo, portanto!

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, COM MORAL, POR PORTUGAL

Sabendo, à partida, que o número de pessoas disponível para trabalhar no setor é escasso, faz sentido procurar para Portugal as melhores oportunidades, que nem sempre são as maiores. Se temos poucas pessoas, então devemos continuar a formar bem estas pessoas – já o fazemos mesmo muito bem – e ajudá-las com mecanismos para aumentar a sua produtividade. É aqui que entra o tema da moda – inteligência artificial e robots.

Apostar no que podemos chamar de “augmented productivity” para cada uma das Pessoas no nosso mercado é o caminho adequado à nossa dimensão e às nossas características.

Isto significa que temos de ver a inteligência artificial como amiga da diferenciação e valorização do trabalho português, em vez de a considerar o “bicho-papão” que vai fazer desaparecer muitos empregos.

E por fim … o eterno desafio da educação para despertar consciências, ensinar a aprender, e formar pelos Valores e pela Moral. Sem ela, nada do que enunciei acima é possível. Mas este é um tema mais profundo, porque toca nos meus filhos. Os meus e de todos os que irão ler este artigo. Por isso, vou deixá-lo para outro momento!

Falem lá de robots. De inteligência artificial, pronto!

* “moral”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008 2013
https://www.priberam.pt/dlpo/moral [consultado em 28-08-2018]

Dez milhões de pessoas com a nossa História remetem para uma competição por diferenciação, por valor e por qualidade. Haverá sempre quem seja mais competitivo no que toca à “quantidade”.
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PEDRO AFONSO | CEO, AXIANS PORTUGAL | BOARD MEMBER, VINCI ENERGIES PORTUGAL

Pedro Afonso tem a seu cargo a liderança e a estratégia de desenvolvimento das operações Axians em Portugal, África, e em alguns mercados europeus (Comissão Europeia e Instituições Europeias e Internacionais), integra o Board da VINCI Energies Portugal, e tem assento no Strategic Comittée South Europe da Axians.

Com um percurso de dezassete anos no setor das Tecnologias de Informação e Comunicação, Pedro Afonso foi membro da Comissão Executiva da Novabase SGPS e Managing Director da Novabase Infrastructures and Managed Services. Liderou ainda a divisão de Digital TV do grupo onde foi responsável pela sua transformação, tanto em Portugal como a nível internacional, tendo também liderado o seu processo de fusão e aquisição. Foi administrador de várias empresas da Novabase, tendo iniciado a sua carreira na Octal, Engenharia de Sistemas.

Tem 42 anos, 3 filhos e é casado. Antigo aluno do Colégio Militar, é licenciado em Engenharia Informática e de Computadores, com especialização em Sistemas Computacionais pelo Instituto Superior Técnico. Possui ainda um Advanced Management Program pela Universidade Católica Portuguesa e formação em Entrepreneurship for Venture Capital e Design Thinking pela Universidade de Stanford, Califórnia.